Contribuição Anglicana
Para uma Reforma Sempre se Reformando
Amados irmãos e irmãs,
O
nosso Deus é Soberano sobre o Universo, a História, nossas vidas e seu
Povo da Nova e Eterna Aliança: a sua Igreja. O Espírito Santo que foi
derramado no Dia do Pentecostes dela nunca se afastou, a despeito das
fraquezas e pecados dos seus dirigentes e fiéis, dos desvios, erros e
superstições de todas as épocas e lugares, preservando um remanescente e
reavivando as vidas e ministérios. A crença em uma “apostasia geral da Igreja”
deve ser firmemente rejeitada como um pecado contra o Espírito Santo e
uma incorreção histórica. A Igreja tem uma importante nova inflexão
qualitativa, de reforma e de obediência, com Lutero, Calvino, Cranmer, e
outros, não um recomeço.
Devemos
sempre agradecer a Deus pela bendita Reforma Protestante do Século XVI,
da qual somos herdeiros, e que temos a responsabilidade de preservar
sempre e atualizar sempre. Não podemos nos esquecer dos seus postulados e
dos seus feitos, nem promover postulados e feitos que a neguem e
maculem. O lugar central das Sagradas Escrituras como fonte de doutrina e
de ética, e a salvação pela Graça de Deus mediante a fé em nosso Senhor
Jesus Cristo é uma verdade central, insubstituível e inegociável.
Celebremos, pois, essa data, com memória, com avaliação crítica e com espírito construtivo e comprometido.
Que
contribuição – com humildade, mas sem falsa modéstia – poderia o
Anglicanismo histórico e bíblico dar ao atual cenário confuso,
fragmentado e exótico do Protestantismo Brasileiro?
1. Uma Valorização da História
Diante
de um presentismo que despreza, agressivamente, dois mil anos de
trajetória do Povo de Deus, seu legado e suas experiências, e diante,
por outro lado, de um tradicionalismo de formas, que engessam e
imobilizam, afirmemos o valor do que foi construído pela Igreja de Jesus
Cristo em seus vinte séculos de história, no Oriente e no Ocidente,
como base sólida para construirmos o presente. Nossa criatividade quanto
a métodos e ênfases nunca poderão se dar pelo desprezo do conteúdo
contido nos Credos, nas Confissões Reformadas e nos capítulos positivos
da nossa História.
2. Uma Valorização da Compreensividade
Vivemos em um contexto protestante marcado pelo ódio, pelos conflitos, pelas desavenças, pelos projetos pessoais e pelos cismas dolorosos, pecaminosos, intermináveis, pelo sectarismo, pelo antiintelectualismo, pelo moralismo-legalista. Falta espírito desarmado, espírito de grandeza, de tolerância, de diálogo, de discernimento entre os aspectos essenciais inegociáveis e os aspectos acidentais aceitáveis, quando a unidade não é sinônimo de uniformidade. Com seu histórico de convivência de correntes credais internas, sua compreensividade ou inclusividade, devemos contribuir para a paz e a unidade do Corpo de Cristo no Brasil.
3. Uma Valorização de um Saber Maduro
Diante da estreiteza mental fundamentalista e da ausência de limites e parâmetros mentais dos liberais, o método anglicano de fazer teologia, comprometido com as Sagradas Escrituras, interpretadas à luz da Tradição (consenso histórico dos fiéis), da Razão (Senso Comum + Sistematizações Filosóficas e Teológicas) e da Experiência (Pessoal + Comunitária), pode, sem dúvida, promover um saber maduro e uma ortodoxia com face humana, em uma Igreja também comunidade terapêutica e não patogênica. Crer é também pensar, e nós temos a mente de Cristo, conhecendo a Sua vontade pela renovação do nosso entendimento.
4. Uma Valorização da Estética
Razões
históricas de proibição legal, a carência de recursos financeiros, uma
identidade por antagonismo (ao romanismo) e a influência de aspectos da
Reforma Radical, tornaram amplamente triunfante no Brasil um
protestantismo de cunho iconoclasta, confundindo arte sacra com
idolatria, empobrecendo a estética como canal de adoração e de
testemunho, na arquitetura, na decoração, nas cerimônias, nos ritos e
nos símbolos. Mais grave hoje, quando o Secularismo quer varrer os
símbolos cristãos, e o Islã quer afirmar os seus. Uma estética religiosa
em harmonia com a Revelação tem sido um apanágio do Anglicanismo. Um
lugar especial deve ser dado ao Livro de Oração Comum (LOC).
Compartilhando uma valorização da estética estaremos vinculando o
Protestantismo Brasileiro à História da Arte Cristã; estaremos liberando
a sensibilidade ao belo que existe dentro de cada fiel; estaremos
missionando com os símbolos, tornando a Igreja mais saudável, mais
alegre, mais reverente e mais relevante. Inestética (feiura) nunca foi
símbolo de santidade.
5. Uma Valorização da Apostolicidade
Nosso
compromisso com a fé bíblica e apostólica, que passou pelos Pais
Apostólicos, pelos Pais da Igreja, pelos Concílios da Igreja Indivisa,
pelos pontos convergentes das Confissões de Fé Reformadas, nos torna
promotores de uma vida eclesiástica, com ordem e com decência, firmada
em um sacerdócio universal de todos os fiéis, que não nega o sacerdócio
especial dos vocacionados, como nos ensinaram os mais antigos. A
manutenção da tríplice Ordem: Diáconos, Presbíteros e Bispos, é um
tesouro a ser compartilhado, como nos afirma o Quadrilátero de Lambeth,
em particular o ministério de unidade, supervisão, e guardião da
verdade, do Episcopado Histórico.
Nesse
tempo que comemoramos a Reforma, e que estamos dispostos a aprender uns
dos outros, não chegamos ao conjunto do Protestantismo de mãos vazias,
mas com algo de valor a ser compartilhado, para o enriquecimento e o
amadurecimento de todos.
Castelo Forte é o nosso Deus!
Recife (PE), 31 de outubro de 2011,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano
Fonte: www.dar.org.br