quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sacramento: Doutrina e Rito

Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto (*)

 

 

A doutrina está relacionada ao entendimento. O rito está relacionado ao fazer. Entretanto, a doutrina está estritamente ligada ao rito, no que diz respeito à religião. O rito é, por isso mesmo, a expressão visível da doutrina; e a doutrina, por sua vez, a explicação correta do rito. Deste modo, no centro do Culto deve ver-se o centro da doutrina cristã. Não foi sem razão que os reformadores procuraram definir corretamente o significado da Ceia do Senhor. A Santa Ceia é o rito central do Culto.


O centro da doutrina de Cristo está plenamente apresentado no Sacramento da Ceia do Senhor que, enquanto ritual expressa, de modo visível, aquilo que nos diz a palavra do Evangelho da Graça de Jesus Cristo. Foi Jesus mesmo quem disse: “o Meu corpo é verdadeira comida”. Eis, aí o mistério da fé. Nesta expressão está o mistério da nossa salvação. Estar salvo é estar unido a Cristo. Estar salvo é participar de Seus benefícios. É fruir dos Seus santos dons.

Na Santa Comunhão é justo isso que se apresenta diante de nós: Cristo e a oferta de Sua vida para que tivéssemos vida abundante. Mais que uma refeição, participar deste ato sagrado é a salvação. Pois não há outra forma, nem outro nome pelo qual sejamos salvos, senão pelo Santo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, afirma um dos nossos artigos de fé:

Os Sacramentos não foram instituídos por Cristo para servirem de espetáculo, ou serem levados em procissão, mas, sim, para devidamente os utilizarmos. E só nas pessoas que dignamente os recebem é que produzem um saudável efeito ou operação; mas, os que indignamente os recebem, adquirem para si mesmos a condenação, como diz São Paulo”.

Ao nos aproximarmos da Santa Mesa, façamos humildemente, levando no coração a certeza que a fé nos confere de que estamos unidos a Cristo e Ele conosco, mistério da nossa salvação.

Desejo a todas as nossas comunidades um domingo feliz e muito abençoado, à volta da Palavra e da Mesa do Senhor.



* Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes, ofa, é Presbítero da Diocese do Recife; Pároco da Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade, em Copacabana, Rio de Janeiro; Venerável Arcediago Sul-Sudeste na 2ª. Região Eclesiástica da DR; Frei da Ordem Franciscana Anglicana (OFA). Este artigo foi compartilhado no dia 06/08/2011, Anno Domini – dia em que lembramos João Ferreira de Almeida, primeiro tradutor da Bíblia para o português, 1691 A.D.

 

sábado, 11 de junho de 2011

Mensagem Arcediagal

Domingo de Pentecostes  


  “Quando Ele vier convencerá o mundo.”  João 16.8

O Espírito Santo veio sobre o Corpo de Cristo, a Igreja, para lhe trazer vida, conceder-lhe dons, outorgando-lhe a capacitação para desenvolver o ministério cristão. A Igreja é o instrumento por excelência da ação do Espírito de Deus no mundo. Por isso, via de conseqüência cabe à Igreja, como instrumento do Espírito, convencer o mundo.
Convencer, no original grego, significa argumentar, apresentar provas. A Igreja se faz de membros convictos, de gente que sabe argumentar o motivo de sua fé. Como, para uma boa argumentação, é necessário saber, não somente falar, mas, também, ouvir (quem pensa que tudo sabe, na verdade, tornou-se incapacitado para uma boa argumentação; é alguém que só sabe decretar). A Igreja como boa convencedora da verdade, se faz de pessoas que sabem ouvir (pois quem não sabe ouvir não tem como responder). Pessoas inaptas a ouvir acabam respondendo perguntas que ninguém está fazendo.
A Igreja é instrumento do Espírito para convencer o mundo, por que ela ouve a voz de clamor dos que sofrem e padecem neste mundo: o grito do dorido, angústia do necessitado, o desespero do afligido. A Igreja está rediviva no poder do Espírito porque sabe sofrer com os que sofrem. Este, talvez, seja o melhor argumento para convencer o mundo da verdade de Cristo: imitá-lO. Há que haver na Igreja uma disposição para assumir a dor alheia, a dor deste mundo, que jaz no maligno, a dor desta sociedade afundada na opressão.

"A Igreja é instrumento do Espírito para convencer o mundo, por que ela ouve a voz de clamor dos que sofrem e padecem neste mundo: o grito do dorido, angústia do necessitado, o desespero do afligido."

 As provas que a Igreja apresenta sobre a verdade de Cristo são, para falar como Paulo, as marcas de Jesus. Sua argumentação não é primeiramente lógica, filosófica, ou mesmo teológica. O maior argumento da Igreja é o argumento prático. Ela demonstra a vida que há em Cristo pela vida que vive. Os argumentos dos lábios da Igreja são convincentes porque ela diz e faz. Se digo uma coisa e realizo outra estou longe de convencer alguém.
Comprovar e demonstrar a verdade de Jesus Cristo, como instrumentos do Espírito Santo, convencendo o mundo, essa é a nossa tarefa como Corpo de Cristo, redivivo pelo Santo Espírito para o convencimento do mundo.

Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes+, ofa

sábado, 23 de abril de 2011

Livro de Oração Comum Brasileiro - LOCb

Ofício da Sexta-Feira Santa I 
(Liturgia das Sete Palavras)


PROCESSIONAL
em silêncio

Ministro:Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede se há dor igual a minha, que veio sobre mim, com a qual o Senhor me afligiu. Lam.1:12

Todos:

No qual temos a redenção pelo seu Sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça. Ef.1:7

Ministro:

O Senhor seja convosco.

Todos:

E com o teu espírito.

Ministro:

Oremos.
Favorece-nos, misericordioso Deus da nossa salvação, a fim de que meditemos agradecidos nos portentosos eventos pelos quais nos outorgaste vida e imortalidade; por Jesus Cristo nosso Senhor.

Todos:

Amém.


CONFISSÃO E ABSOLVIÇÃO DE PECADOS

Ministro:Confessemos humildemente os nossos pecados a Deus Todo–Poderoso.

Todos:

Ó Poderosíssimo Deus e Pai misericordioso, que tens compaixão de todos os homens, e que não desejas a morte do pecador, porém seu arrependimento e salvação; Misericordiosamente perdoa-nos as nossas transgressões; recebe-nos e conforta-nos a nós que estamos entristecidos e mortificados com o peso de nossas culpas. Tua propensão é ter sempre misericórdia; só a ti pertence o perdoar os pecados. Perdoa-nos, portanto, bom Senhor, perdoa ao teu povo, que remiste; não entre em juízo com os teus servos, porém de tal maneira aparta de nós a tua ira, de nós que reconhecemos, humildes, as nossas transgressões e verdadeiramente nos arrependemos de nossas faltas, e assim apressa-te a ajudar-nos neste mundo, a fim de que vivamos para sempre neste mundo contigo no nosso mundo vindouro; mediante Jesus Cristo nosso Senhor. Amém


DECLARAÇÃO DE ABSOLVIÇÃO

Ministro:O Senhor Onipotente e misericordioso nos dê a Absolvição e Remissão de todos os nossos pecados, verdadeiro arrependimento, emenda de vida; a graça e a consolação de seu Santo Espírito.

Todos:

Amém.

Hino
MEDITAÇÃO SOBRE A PRIMEIRA PALAVRA DA CRUZ

"Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem"


Ministro:Senhor, tem piedade de nós.

Todos:

Cristo, tem piedade de nós.
Ministro:Senhor, tem piedade de nós.

(Oração silenciosa)

Todos:Onipotente Deus, cujo Filho muito amado não gozou perfeita alegria senão após o sofrimento e só subiu à glória depois de crucificado. Concede-nos misericordioso que, seguindo o caminho da cruz, seja este para nós vereda de vida e paz; pelo mesmo Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor. Amém.

MEDITAÇÃO SOBRE A SEGUNDA PALAVRA DA CRUZ

“Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no paraíso”

Ministro:Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
Todos:Tem misericórdia de nós.
 Ministro:Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
Todos:Tem misericórdia de nós.
Ministro:Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
Todos:Dá-nos a tua paz.

(Oração silenciosa)

Todos:Todos: Ó Eterno Deus, que mantêm viva todas as almas; outorga, te suplicamos, a toda a tua Igreja na terra e no paraíso, tua luz e paz; e permite que nós sigamos os bons exemplos daqueles que te serviram aqui e que agora descansam, entremos com eles no teu eterno gozo; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino


MEDITAÇÃO SOBRE A TERCEIRA PALAVRA DA CRUZ

“Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí tua mãe”

Ministro:
Ó Senhor Deus, cuida de todas as parturientes e enfermos; protege as crianças.
Todos:Suplicamos-te que nos ouças, bom Senhor.
Ministro:
Defende os órfãos e viúvas e a todos os desolados e oprimidos.
Todos:Suplicamos-te que nos ouças, bom Senhor.

(Oração silenciosa)

Todos:Onipotente Deus, confiamos todos os que nos são caros ao teu infalível amor e cuidado, para a presente vida e para a vindoura; sabendo que tu estás fazendo por eles muito mais do que nós podemos desejar ou pedir; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A QUARTA PALAVRA DA CRUZ

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Ministro:
Nós, pecadores, te imploramos, ó Senhor Deus, que nos ouças e nos libertes; por tua agonia e suor de sangue; por tua cruz e paixão; por tua preciosa morte e sepultura; por tua gloriosa ressurreição e admirável ascensão; e pela vinda do Espírito Santo.
Todos:Livra-nos, bom Senhor.
Ministro:
No tempo de nossa tribulação, no tempo de nossa prosperidade; à hora da morte, e no dia do juízo.
Todos:Livra-nos, bom Senhor.

(Oração silenciosa)

Todos:Conforta, suplicamos-te, clementíssimo Deus, os teus servos abatidos e desanimados em meio às tristezas e dificuldades do mundo; e concede que, pelo poder do teu Santo Espírito, prossigam alegres em sua jornada na vida, dando-te contínuas graças por tua longânima providência; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A QUINTA PALAVRA DA CRUZ

“Tenho sede!”

Ministro:Salva, Senhor, os teus servos;
Todos:Que em ti confiam.
Ministro:Do santuário envia-lhes auxílio;
Todos:E defende-nos sempre por teu poder.
Ministro:Ouve, Senhor, os nossos rogos;
Todos:E chegue a ti o nosso clamor.
 
(Oração silenciosa)

Todos:Guarda, te suplicamos, ó Senhor, a tua Igreja com tua misericórdia perpétua; e visto que a fragilidade humana, sem ti não pode evitar a queda, livra-nos de contínuo com teu auxílio de tudo quanto é nocivo, e guia-nos ao que é proveitoso à nossa salvação; mediante Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A SEXTA PALAVRA DA CRUZ

“Está consumado!”

Ministro:Não nos trate, Senhor, qual merece os nossos pecados.
Todos:Nem nos recompenses conforme as nossas iniqüidades
.
Ministro:Considera, misericordioso, os pesares de nossos corações.
Todos:Perdoa compassivo os pecados de teu povo.

(Oração silenciosa)

Todos:Onipotente Deus que criaste o homem à tua própria imagem, concede-nos a graça de lutar destemidos contra o mal e jamais nos conformar com a opressão; e, para que usemos com reverência a nossa liberdade, ajuda-nos a empregá-la na manutenção da justiça entre os homens e as nações, à glória de teu Santo nome; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A SÉTIMA PALAVRA DA CRUZ
 
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”

Ministro:Atende-nos agora e sempre, ó Cristo!
Todos:
Escuta-nos, ó Cristo; escuta-nos por tua celeste piedade, ó Cristo Senhor.
Ministro:Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo;
Todos:Como era no princípio, é agora, e será sempre, por todos os séculos. Amém.

(Oração silenciosa)

Todos:Ó Deus, que aos bons confere discernimento e aos piedosos fazes, nas trevas, resplandecer a luz; concede-nos, em todas as nossas dúvidas e incertezas, a graça de pedir o que é de teu agrado, a fim de que o Espírito de Sabedoria nos livre de toda má escolha, e que esclarecidos pela tua luz, percorramos, sem tropeço, os teus retos caminhos; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

Todos:
Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra;
E em Jesus Cristo seu único Filho, nosso Senhor: O qual foi concebido por obra do Espírito Santo, Nasceu da Virgem Maria; Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, Foi crucificado, morto e sepultado; Desceu ao Hades; Ressuscitou ao terceiro dia; Subiu ao céu, E está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-poderoso: Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo;
Na santa Igreja Católica;
Na comunhão dos santos;
Na remissão dos pecados;
Na ressurreição do corpo;
E na Vida Eterna. Amém.
Estando o povo ajoelhado, será despedido com a bênção:
Ministro:O Deus da Paz, que ressuscitou dos mortos pelo sangue da Sempiterna Aliança, a Jesus Cristo, Senhor nosso, grande Pastor das ovelhas, nos aperfeiçoe em toda a boa obra para fazermos a sua vontade, operando em nós o que seja agradável aos seus olhos; mediante Jesus Cristo, ao qual seja glória pelos séculos dos séculos.

Todos:Amém.
Recessional em silêncio
 ***

Mensagem de Páscoa do Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes, ofa


Queridos irmãos,
Queridas irmãs, 

O termo páscoa vem do hebraico “pessach” e significa “passagem”: era o solstício da lua (sua “passagem” pelo ponto mais alto), e, mais tarde, a celebração do êxodo do Egito, quando “passou” o Anjo da Morte e os hebreus saíram da escravidão. Jesus ressuscitou na Páscoa: foi sepultado, passou pela morte, mas ressurgiu vencendo a morte, seu medo e seu terror.
Por isso celebramos a Páscoa, porque Jesus ressuscitou dentre os mortos:
 
  • assim, olhamos para o futuro e galgamos, cada passo, com o coração repleto de esperança, ousadia e coragem;
  •  e, por isso, sabemos que tudo pode ser diferente: Ele venceu o maior inimigo, a morte;
  • assim, não há pedra, por maior que seja, que possa barrar o caminho, impedir a vida ou frustrar os nossos sonhos;
  • e, por isso, novas sepulturas podem se abrir para a vida em abundância
  •  assim, lágrimas e dores podem cessar, angústias e desesperos podem parar;
  • e por isso, nunca mais a vida será tangida pelo medo, pelo terror, pelo horror, estas armas malditas e demoníacas foram definitivamente vencidas;
  • assim, toda pergunta encontrará resposta, toda questão encontrará solução, toda busca encontrará sentido, todo conhecimento e toda ciência redundarão em vida;
  • e por isso, a felicidade alcançará o coração triste, a paz reinará tornando o tumulto e sossego, o caos em ordem, a desordem em harmonia;
  •  assim, a violência, o ódio, a amargura e a maldade não mais resistirão à força do amor;
  • e, por isso, as cadeias se abrirão, tumbas também, as correntes que oprimem quebrar-se-ão;
  • assim, o logo comerá palha com o boi e as crianças brincarão na toca da serpente e não haverá dano, nem mal algum;
  • e, por isso, a verdade e a justiça se abraçarão, a justiça e a paz se beijarão, verdade e bem andarão juntos, porque o amor será o companheiro de todos.

A Páscoa do Senhor é a passagem daquela antiga realidade para a nova e abençoada realidade, onde as janelas celestes se abriram e Deus, em Cristo, sorriu para todos nós que ainda cremos no amor, na justiça, no bem, na liberdade, na harmonia, na paz. FELIZ PÁSCOA a todos e todas quando, neste dia de dor temos a esperança do Domingo pois, a dor pode durar uma noite inteira mas, pela manhã vem a alegria.
Ven.Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes+, ofa
                                                                                     

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Você Reza ou Ora?

 Rev. Julio Zamparetti Fernandes*

Devido a minha postura assumidamente ecumênica, algumas pessoas evangélicas me perguntam, você reza ou ora? Prontamente lhes respondo: rezo e oro. 
 
Eu tanto rezo quanto oro porque, em primeiro lugar, rezar e orar são sinônimos desde suas raízes latinas: orar vem do termo orare que significa pronunciar uma fórmula ritual, oração, frase, enquanto rezar vem do latim recitare de onde temos o verbo recitar que significa dizer (orar) em alta voz.

No Brasil criou-se por parte dos evangélicos a distinção entre os termos, conotando-se a palavra rezar para o ato de se fazer orações decoradas. Ironicamente, as orações recitadas não sofrem, por parte destes, qualquer relação com o termo rezar. O hábito de recitar salmos e versículos lhes é comum, porém, mesmo fazendo, não admitem que estão rezando!

À palavra orar foi dado o sentido de fazer orações espontâneas. Entretanto, o sentido original da palavra, que é pronunciar, permite que o termo também seja relacionado ao ato de proferir orações previamente estabelecidas e até mesmo decoradas.

Alguns argumentam que as orações decoradas não expressam o sentimento do coração. Este é, na verdade, um problema muito sério, que jamais seria resolvido com orações espontâneas. Pois não são as palavras que fazem autênticas as orações, mas sim o Espírito em que se ora. Neste ínterim, podemos comparar a oração à música, onde na maioria das vezes a melhor interpretação não se dá pelo compositor. É comum vermos intérpretes expressarem muito mais sentimento e originalidade que o próprio autor da música.

Eu gosto de recitar (rezar) Salmos, o Pai Nosso e outros textos bíblicos. Tenho alguns deles decorados e comumente os uso em meus devocionais. Honestamente, me acho incapaz de fazer orações melhores que estas. É nas Escrituras Sagradas que encontro as mais perfeitas expressões dos sentimentos de minha alma.

Também gosto de recitar, repetidas vezes, versículos e orações breves. Há quem condene isso por dizer se tratar de “vãs repetições”, tal qual descritas por Jesus em Mateus 6.7. O problema dessa acusação é que ela não expressa a verdade que Jesus estava retratando. Jesus não estava criticando as orações repetidas, mas sim o pensamento de quem deseja impor sua própria vontade sobre a vontade de Deus através de muitas palavras. O que Jesus está dizendo é que é o espírito do orador e não as palavras proferidas que torna as repetições vãs. E neste aspecto podemos dizer sem medo de errar que muitas orações espontâneas não passam de vãs repetições. E haja repetições de “aleluias”, “glórias a Deus”, “louvado sejas” e glossolalias para preencher o tempo de oração! Pois pensam que pelo tempo que gastam e seu muito falar serão ouvidos por Deus.

Não há nada de errado em orar/rezar repetidamente. O erro está em nossas motivações que fazem com que as repetições e qualquer forma de oração tornem-se vãs. O próprio Jesus ensinou a pedir repetidamente, de forma insistente, conforme vemos em Lucas 11.5-8. Se isso já não bastasse, Ele mesmo orou repetindo, por aproximadamente três horas, as mesmas palavras: “E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. E, indo segunda vez, orou, dizendo: Meu Pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade. E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras (Mateus 26.39,42,44).

Seja recitando, rezando, declamando, orando, cantando, clamando ou agradecendo de forma espontânea, lida ou decorada; em pensamento, falando ou se calando: achegue-se a Deus e Ele se achegará a você.

*Rev. Julio Zamparetti Fernandes é padre ordenado pela igreja galicana (anti-concordatária Franco-Belga, cisma de 1801). É também escritor, músico, compositor e produtor musical.

Texto publicado originalmente em juliozamparetti.blogspot.com 

domingo, 13 de março de 2011

Para Melhor Compreender a Quaresma


Rev. Maurício Amazonas, ose (¬)

A Igreja sempre reservou os quarenta dias que antecedem a Semana Santa para pensar e meditar nos mistérios e propósitos de Deus em nos salvar. Este, portanto, é um tempo de quebrantamento pelo reconhecimento da nossa incapacidade diante do tão grande amor de Deus. É tempo de chamada ao arrependimento, conversão e santificação. Por isso que o jejum está presente. Ele é uma forma de melhor conhecer e dominar nossos apetites, procurando fazer com que nossa vontade esteja em sintonia com a vontade de Deus.

É por isso que os mais “carnais” faziam uma festa de despedida para entrar na Quaresma. Faziam um grande banquete com danças, bebidas e carnes. Era chamada a “festa da carne” ou Carnaval. Era uma festa que, a princípio, poderia ter sido ingênua e despretensiosa, apenas se fartar de carne para não sentir saudades dela durante o período da Quaresma.

O que marca o início da Quaresma é a Quarta-feira de Cinzas. Interessante notar que a Quarta-feira de Cinzas não existe por causa do Carnaval, mas o contrário. É preciso que se diga isso, pois muita gente pensa que a Quarta de Cinzas foi inventada para dar absolvição aos carnavalescos. Não era assim. Este dia existia para chamar o povo à Abertura da Quaresma. Como ainda havia algum respeito na sociedade para com as coisas da Igreja, brincava-se apenas até a terça-feira. Daí para frente, o jejum era respeitado e praticado.

Mas o que encontramos hoje na sociedade secularista? Nenhum respeito para com o Sagrado. Existem blocos desfilando em plena Quarta-feira de Cinzas e outros que desfilam ainda no sábado que antecede o Primeiro Domingo da Quaresma, como é o caso do Camburão, troça dos soldados da Polícia Militar, aqui em Recife, por exemplo. Agora estão falando numa semana complementar de Carnaval. Parece que o que impera neste século é o lucro e a luxúria. Saudades dos tempos em que o Carnaval eram os desfiles dos blocos líricos, coisa de família e de gente que gostava apenas de brincar...

Lamentavelmente ainda temos cristãos nominais que saem nos blocos e troças em plena Quaresma, tomando porres homéricos. É uma gente que se serve da Igreja apenas para realizar batizados, casamentos e enterros. Gente que só abre a Bíblia para guardar e procurar pequenos papéis de lembrança! Não sabem quem são e nem a Quem servem! Que o Espírito Santo possa trabalhar nesses corações e fazê-los convertidos de verdade.

Que possamos entender a cultura com seus aspectos positivos e negativos, sabendo examinar tudo e reter o bem. Que Deus possa nos usar como instrumentos na evangelização dos pagãos que foram batizados, mas continuam vivendo como pagãos. Que Deus tenha misericórdia de todos nós!  



Rev. Maurício Amazonas, ose é Presbítero na Diocese do Recife; Vigário Geral Diocesano, Pároco da Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras, no Arcediagado Centro, em Recife - PE