quarta-feira, 13 de julho de 2011

Um Processional Tipicamente Anglicano



sábado, 11 de junho de 2011

Mensagem Arcediagal

Domingo de Pentecostes  


  “Quando Ele vier convencerá o mundo.”  João 16.8

O Espírito Santo veio sobre o Corpo de Cristo, a Igreja, para lhe trazer vida, conceder-lhe dons, outorgando-lhe a capacitação para desenvolver o ministério cristão. A Igreja é o instrumento por excelência da ação do Espírito de Deus no mundo. Por isso, via de conseqüência cabe à Igreja, como instrumento do Espírito, convencer o mundo.
Convencer, no original grego, significa argumentar, apresentar provas. A Igreja se faz de membros convictos, de gente que sabe argumentar o motivo de sua fé. Como, para uma boa argumentação, é necessário saber, não somente falar, mas, também, ouvir (quem pensa que tudo sabe, na verdade, tornou-se incapacitado para uma boa argumentação; é alguém que só sabe decretar). A Igreja como boa convencedora da verdade, se faz de pessoas que sabem ouvir (pois quem não sabe ouvir não tem como responder). Pessoas inaptas a ouvir acabam respondendo perguntas que ninguém está fazendo.
A Igreja é instrumento do Espírito para convencer o mundo, por que ela ouve a voz de clamor dos que sofrem e padecem neste mundo: o grito do dorido, angústia do necessitado, o desespero do afligido. A Igreja está rediviva no poder do Espírito porque sabe sofrer com os que sofrem. Este, talvez, seja o melhor argumento para convencer o mundo da verdade de Cristo: imitá-lO. Há que haver na Igreja uma disposição para assumir a dor alheia, a dor deste mundo, que jaz no maligno, a dor desta sociedade afundada na opressão.

"A Igreja é instrumento do Espírito para convencer o mundo, por que ela ouve a voz de clamor dos que sofrem e padecem neste mundo: o grito do dorido, angústia do necessitado, o desespero do afligido."

 As provas que a Igreja apresenta sobre a verdade de Cristo são, para falar como Paulo, as marcas de Jesus. Sua argumentação não é primeiramente lógica, filosófica, ou mesmo teológica. O maior argumento da Igreja é o argumento prático. Ela demonstra a vida que há em Cristo pela vida que vive. Os argumentos dos lábios da Igreja são convincentes porque ela diz e faz. Se digo uma coisa e realizo outra estou longe de convencer alguém.
Comprovar e demonstrar a verdade de Jesus Cristo, como instrumentos do Espírito Santo, convencendo o mundo, essa é a nossa tarefa como Corpo de Cristo, redivivo pelo Santo Espírito para o convencimento do mundo.

Ven. Arc. Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes+, ofa

sábado, 23 de abril de 2011

Livro de Oração Comum Brasileiro - LOCb

Ofício da Sexta-Feira Santa I 
(Liturgia das Sete Palavras)


PROCESSIONAL
em silêncio

Ministro:Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede se há dor igual a minha, que veio sobre mim, com a qual o Senhor me afligiu. Lam.1:12

Todos:

No qual temos a redenção pelo seu Sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça. Ef.1:7

Ministro:

O Senhor seja convosco.

Todos:

E com o teu espírito.

Ministro:

Oremos.
Favorece-nos, misericordioso Deus da nossa salvação, a fim de que meditemos agradecidos nos portentosos eventos pelos quais nos outorgaste vida e imortalidade; por Jesus Cristo nosso Senhor.

Todos:

Amém.


CONFISSÃO E ABSOLVIÇÃO DE PECADOS

Ministro:Confessemos humildemente os nossos pecados a Deus Todo–Poderoso.

Todos:

Ó Poderosíssimo Deus e Pai misericordioso, que tens compaixão de todos os homens, e que não desejas a morte do pecador, porém seu arrependimento e salvação; Misericordiosamente perdoa-nos as nossas transgressões; recebe-nos e conforta-nos a nós que estamos entristecidos e mortificados com o peso de nossas culpas. Tua propensão é ter sempre misericórdia; só a ti pertence o perdoar os pecados. Perdoa-nos, portanto, bom Senhor, perdoa ao teu povo, que remiste; não entre em juízo com os teus servos, porém de tal maneira aparta de nós a tua ira, de nós que reconhecemos, humildes, as nossas transgressões e verdadeiramente nos arrependemos de nossas faltas, e assim apressa-te a ajudar-nos neste mundo, a fim de que vivamos para sempre neste mundo contigo no nosso mundo vindouro; mediante Jesus Cristo nosso Senhor. Amém


DECLARAÇÃO DE ABSOLVIÇÃO

Ministro:O Senhor Onipotente e misericordioso nos dê a Absolvição e Remissão de todos os nossos pecados, verdadeiro arrependimento, emenda de vida; a graça e a consolação de seu Santo Espírito.

Todos:

Amém.

Hino
MEDITAÇÃO SOBRE A PRIMEIRA PALAVRA DA CRUZ

"Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem"


Ministro:Senhor, tem piedade de nós.

Todos:

Cristo, tem piedade de nós.
Ministro:Senhor, tem piedade de nós.

(Oração silenciosa)

Todos:Onipotente Deus, cujo Filho muito amado não gozou perfeita alegria senão após o sofrimento e só subiu à glória depois de crucificado. Concede-nos misericordioso que, seguindo o caminho da cruz, seja este para nós vereda de vida e paz; pelo mesmo Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor. Amém.

MEDITAÇÃO SOBRE A SEGUNDA PALAVRA DA CRUZ

“Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no paraíso”

Ministro:Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
Todos:Tem misericórdia de nós.
 Ministro:Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
Todos:Tem misericórdia de nós.
Ministro:Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
Todos:Dá-nos a tua paz.

(Oração silenciosa)

Todos:Todos: Ó Eterno Deus, que mantêm viva todas as almas; outorga, te suplicamos, a toda a tua Igreja na terra e no paraíso, tua luz e paz; e permite que nós sigamos os bons exemplos daqueles que te serviram aqui e que agora descansam, entremos com eles no teu eterno gozo; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino


MEDITAÇÃO SOBRE A TERCEIRA PALAVRA DA CRUZ

“Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí tua mãe”

Ministro:
Ó Senhor Deus, cuida de todas as parturientes e enfermos; protege as crianças.
Todos:Suplicamos-te que nos ouças, bom Senhor.
Ministro:
Defende os órfãos e viúvas e a todos os desolados e oprimidos.
Todos:Suplicamos-te que nos ouças, bom Senhor.

(Oração silenciosa)

Todos:Onipotente Deus, confiamos todos os que nos são caros ao teu infalível amor e cuidado, para a presente vida e para a vindoura; sabendo que tu estás fazendo por eles muito mais do que nós podemos desejar ou pedir; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A QUARTA PALAVRA DA CRUZ

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Ministro:
Nós, pecadores, te imploramos, ó Senhor Deus, que nos ouças e nos libertes; por tua agonia e suor de sangue; por tua cruz e paixão; por tua preciosa morte e sepultura; por tua gloriosa ressurreição e admirável ascensão; e pela vinda do Espírito Santo.
Todos:Livra-nos, bom Senhor.
Ministro:
No tempo de nossa tribulação, no tempo de nossa prosperidade; à hora da morte, e no dia do juízo.
Todos:Livra-nos, bom Senhor.

(Oração silenciosa)

Todos:Conforta, suplicamos-te, clementíssimo Deus, os teus servos abatidos e desanimados em meio às tristezas e dificuldades do mundo; e concede que, pelo poder do teu Santo Espírito, prossigam alegres em sua jornada na vida, dando-te contínuas graças por tua longânima providência; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A QUINTA PALAVRA DA CRUZ

“Tenho sede!”

Ministro:Salva, Senhor, os teus servos;
Todos:Que em ti confiam.
Ministro:Do santuário envia-lhes auxílio;
Todos:E defende-nos sempre por teu poder.
Ministro:Ouve, Senhor, os nossos rogos;
Todos:E chegue a ti o nosso clamor.
 
(Oração silenciosa)

Todos:Guarda, te suplicamos, ó Senhor, a tua Igreja com tua misericórdia perpétua; e visto que a fragilidade humana, sem ti não pode evitar a queda, livra-nos de contínuo com teu auxílio de tudo quanto é nocivo, e guia-nos ao que é proveitoso à nossa salvação; mediante Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A SEXTA PALAVRA DA CRUZ

“Está consumado!”

Ministro:Não nos trate, Senhor, qual merece os nossos pecados.
Todos:Nem nos recompenses conforme as nossas iniqüidades
.
Ministro:Considera, misericordioso, os pesares de nossos corações.
Todos:Perdoa compassivo os pecados de teu povo.

(Oração silenciosa)

Todos:Onipotente Deus que criaste o homem à tua própria imagem, concede-nos a graça de lutar destemidos contra o mal e jamais nos conformar com a opressão; e, para que usemos com reverência a nossa liberdade, ajuda-nos a empregá-la na manutenção da justiça entre os homens e as nações, à glória de teu Santo nome; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

MEDITAÇÃO SOBRE A SÉTIMA PALAVRA DA CRUZ
 
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”

Ministro:Atende-nos agora e sempre, ó Cristo!
Todos:
Escuta-nos, ó Cristo; escuta-nos por tua celeste piedade, ó Cristo Senhor.
Ministro:Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo;
Todos:Como era no princípio, é agora, e será sempre, por todos os séculos. Amém.

(Oração silenciosa)

Todos:Ó Deus, que aos bons confere discernimento e aos piedosos fazes, nas trevas, resplandecer a luz; concede-nos, em todas as nossas dúvidas e incertezas, a graça de pedir o que é de teu agrado, a fim de que o Espírito de Sabedoria nos livre de toda má escolha, e que esclarecidos pela tua luz, percorramos, sem tropeço, os teus retos caminhos; por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Hino

Todos:
Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra;
E em Jesus Cristo seu único Filho, nosso Senhor: O qual foi concebido por obra do Espírito Santo, Nasceu da Virgem Maria; Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, Foi crucificado, morto e sepultado; Desceu ao Hades; Ressuscitou ao terceiro dia; Subiu ao céu, E está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-poderoso: Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo;
Na santa Igreja Católica;
Na comunhão dos santos;
Na remissão dos pecados;
Na ressurreição do corpo;
E na Vida Eterna. Amém.
Estando o povo ajoelhado, será despedido com a bênção:
Ministro:O Deus da Paz, que ressuscitou dos mortos pelo sangue da Sempiterna Aliança, a Jesus Cristo, Senhor nosso, grande Pastor das ovelhas, nos aperfeiçoe em toda a boa obra para fazermos a sua vontade, operando em nós o que seja agradável aos seus olhos; mediante Jesus Cristo, ao qual seja glória pelos séculos dos séculos.

Todos:Amém.
Recessional em silêncio
 ***

Mensagem de Páscoa do Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes, ofa


Queridos irmãos,
Queridas irmãs, 

O termo páscoa vem do hebraico “pessach” e significa “passagem”: era o solstício da lua (sua “passagem” pelo ponto mais alto), e, mais tarde, a celebração do êxodo do Egito, quando “passou” o Anjo da Morte e os hebreus saíram da escravidão. Jesus ressuscitou na Páscoa: foi sepultado, passou pela morte, mas ressurgiu vencendo a morte, seu medo e seu terror.
Por isso celebramos a Páscoa, porque Jesus ressuscitou dentre os mortos:
 
  • assim, olhamos para o futuro e galgamos, cada passo, com o coração repleto de esperança, ousadia e coragem;
  •  e, por isso, sabemos que tudo pode ser diferente: Ele venceu o maior inimigo, a morte;
  • assim, não há pedra, por maior que seja, que possa barrar o caminho, impedir a vida ou frustrar os nossos sonhos;
  • e, por isso, novas sepulturas podem se abrir para a vida em abundância
  •  assim, lágrimas e dores podem cessar, angústias e desesperos podem parar;
  • e por isso, nunca mais a vida será tangida pelo medo, pelo terror, pelo horror, estas armas malditas e demoníacas foram definitivamente vencidas;
  • assim, toda pergunta encontrará resposta, toda questão encontrará solução, toda busca encontrará sentido, todo conhecimento e toda ciência redundarão em vida;
  • e por isso, a felicidade alcançará o coração triste, a paz reinará tornando o tumulto e sossego, o caos em ordem, a desordem em harmonia;
  •  assim, a violência, o ódio, a amargura e a maldade não mais resistirão à força do amor;
  • e, por isso, as cadeias se abrirão, tumbas também, as correntes que oprimem quebrar-se-ão;
  • assim, o logo comerá palha com o boi e as crianças brincarão na toca da serpente e não haverá dano, nem mal algum;
  • e, por isso, a verdade e a justiça se abraçarão, a justiça e a paz se beijarão, verdade e bem andarão juntos, porque o amor será o companheiro de todos.

A Páscoa do Senhor é a passagem daquela antiga realidade para a nova e abençoada realidade, onde as janelas celestes se abriram e Deus, em Cristo, sorriu para todos nós que ainda cremos no amor, na justiça, no bem, na liberdade, na harmonia, na paz. FELIZ PÁSCOA a todos e todas quando, neste dia de dor temos a esperança do Domingo pois, a dor pode durar uma noite inteira mas, pela manhã vem a alegria.
Ven.Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes+, ofa
                                                                                     

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Você Reza ou Ora?

 Rev. Julio Zamparetti Fernandes*

Devido a minha postura assumidamente ecumênica, algumas pessoas evangélicas me perguntam, você reza ou ora? Prontamente lhes respondo: rezo e oro. 
 
Eu tanto rezo quanto oro porque, em primeiro lugar, rezar e orar são sinônimos desde suas raízes latinas: orar vem do termo orare que significa pronunciar uma fórmula ritual, oração, frase, enquanto rezar vem do latim recitare de onde temos o verbo recitar que significa dizer (orar) em alta voz.

No Brasil criou-se por parte dos evangélicos a distinção entre os termos, conotando-se a palavra rezar para o ato de se fazer orações decoradas. Ironicamente, as orações recitadas não sofrem, por parte destes, qualquer relação com o termo rezar. O hábito de recitar salmos e versículos lhes é comum, porém, mesmo fazendo, não admitem que estão rezando!

À palavra orar foi dado o sentido de fazer orações espontâneas. Entretanto, o sentido original da palavra, que é pronunciar, permite que o termo também seja relacionado ao ato de proferir orações previamente estabelecidas e até mesmo decoradas.

Alguns argumentam que as orações decoradas não expressam o sentimento do coração. Este é, na verdade, um problema muito sério, que jamais seria resolvido com orações espontâneas. Pois não são as palavras que fazem autênticas as orações, mas sim o Espírito em que se ora. Neste ínterim, podemos comparar a oração à música, onde na maioria das vezes a melhor interpretação não se dá pelo compositor. É comum vermos intérpretes expressarem muito mais sentimento e originalidade que o próprio autor da música.

Eu gosto de recitar (rezar) Salmos, o Pai Nosso e outros textos bíblicos. Tenho alguns deles decorados e comumente os uso em meus devocionais. Honestamente, me acho incapaz de fazer orações melhores que estas. É nas Escrituras Sagradas que encontro as mais perfeitas expressões dos sentimentos de minha alma.

Também gosto de recitar, repetidas vezes, versículos e orações breves. Há quem condene isso por dizer se tratar de “vãs repetições”, tal qual descritas por Jesus em Mateus 6.7. O problema dessa acusação é que ela não expressa a verdade que Jesus estava retratando. Jesus não estava criticando as orações repetidas, mas sim o pensamento de quem deseja impor sua própria vontade sobre a vontade de Deus através de muitas palavras. O que Jesus está dizendo é que é o espírito do orador e não as palavras proferidas que torna as repetições vãs. E neste aspecto podemos dizer sem medo de errar que muitas orações espontâneas não passam de vãs repetições. E haja repetições de “aleluias”, “glórias a Deus”, “louvado sejas” e glossolalias para preencher o tempo de oração! Pois pensam que pelo tempo que gastam e seu muito falar serão ouvidos por Deus.

Não há nada de errado em orar/rezar repetidamente. O erro está em nossas motivações que fazem com que as repetições e qualquer forma de oração tornem-se vãs. O próprio Jesus ensinou a pedir repetidamente, de forma insistente, conforme vemos em Lucas 11.5-8. Se isso já não bastasse, Ele mesmo orou repetindo, por aproximadamente três horas, as mesmas palavras: “E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. E, indo segunda vez, orou, dizendo: Meu Pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade. E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras (Mateus 26.39,42,44).

Seja recitando, rezando, declamando, orando, cantando, clamando ou agradecendo de forma espontânea, lida ou decorada; em pensamento, falando ou se calando: achegue-se a Deus e Ele se achegará a você.

*Rev. Julio Zamparetti Fernandes é padre ordenado pela igreja galicana (anti-concordatária Franco-Belga, cisma de 1801). É também escritor, músico, compositor e produtor musical.

Texto publicado originalmente em juliozamparetti.blogspot.com 

domingo, 13 de março de 2011

Para Melhor Compreender a Quaresma


Rev. Maurício Amazonas, ose (¬)

A Igreja sempre reservou os quarenta dias que antecedem a Semana Santa para pensar e meditar nos mistérios e propósitos de Deus em nos salvar. Este, portanto, é um tempo de quebrantamento pelo reconhecimento da nossa incapacidade diante do tão grande amor de Deus. É tempo de chamada ao arrependimento, conversão e santificação. Por isso que o jejum está presente. Ele é uma forma de melhor conhecer e dominar nossos apetites, procurando fazer com que nossa vontade esteja em sintonia com a vontade de Deus.

É por isso que os mais “carnais” faziam uma festa de despedida para entrar na Quaresma. Faziam um grande banquete com danças, bebidas e carnes. Era chamada a “festa da carne” ou Carnaval. Era uma festa que, a princípio, poderia ter sido ingênua e despretensiosa, apenas se fartar de carne para não sentir saudades dela durante o período da Quaresma.

O que marca o início da Quaresma é a Quarta-feira de Cinzas. Interessante notar que a Quarta-feira de Cinzas não existe por causa do Carnaval, mas o contrário. É preciso que se diga isso, pois muita gente pensa que a Quarta de Cinzas foi inventada para dar absolvição aos carnavalescos. Não era assim. Este dia existia para chamar o povo à Abertura da Quaresma. Como ainda havia algum respeito na sociedade para com as coisas da Igreja, brincava-se apenas até a terça-feira. Daí para frente, o jejum era respeitado e praticado.

Mas o que encontramos hoje na sociedade secularista? Nenhum respeito para com o Sagrado. Existem blocos desfilando em plena Quarta-feira de Cinzas e outros que desfilam ainda no sábado que antecede o Primeiro Domingo da Quaresma, como é o caso do Camburão, troça dos soldados da Polícia Militar, aqui em Recife, por exemplo. Agora estão falando numa semana complementar de Carnaval. Parece que o que impera neste século é o lucro e a luxúria. Saudades dos tempos em que o Carnaval eram os desfiles dos blocos líricos, coisa de família e de gente que gostava apenas de brincar...

Lamentavelmente ainda temos cristãos nominais que saem nos blocos e troças em plena Quaresma, tomando porres homéricos. É uma gente que se serve da Igreja apenas para realizar batizados, casamentos e enterros. Gente que só abre a Bíblia para guardar e procurar pequenos papéis de lembrança! Não sabem quem são e nem a Quem servem! Que o Espírito Santo possa trabalhar nesses corações e fazê-los convertidos de verdade.

Que possamos entender a cultura com seus aspectos positivos e negativos, sabendo examinar tudo e reter o bem. Que Deus possa nos usar como instrumentos na evangelização dos pagãos que foram batizados, mas continuam vivendo como pagãos. Que Deus tenha misericórdia de todos nós!  



Rev. Maurício Amazonas, ose é Presbítero na Diocese do Recife; Vigário Geral Diocesano, Pároco da Paróquia Anglicana Jardim das Oliveiras, no Arcediagado Centro, em Recife - PE

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Você sabe o que é e o que faz um acólito?

Síntese histórica

Acólito é uma palavra grega que significa "ajudante" ou "acompanhante". É o ministro leigo (de ambos os sexos) que acompanha e ajuda os ministros ordenados na celebração litúrgica, representando a congregação junto ao altar.
Há três ordens de ministros na Igreja cristã desde os tempos apostólicos: diáconos, presbíteros e bispos. Mas os acólitos fazem parte de uma tradição muito antiga. Cornélio, bispo de Roma, nos idos do ano 251 d.C., os menciona em uma carta escrita a Fábio de Antioquia da Síria. Já no fim do século II ou início do século III, os documentos da Igreja fazem referência, entre outras, à "ordem menor" de acólito, cuja função era a de auxiliar os diáconos em seu trabalho. O bispo Cornélio menciona a existência de quarenta e dois
acólitos na Igreja de Roma.

Acólito cruciferário à frente do cortejo processional
Cipriano, bispo de Cartago, no norte da África, também cita os acólitos em suas cartas (de 200 a 258). O 4o Concílio de Cartago (398 d.C.), aprovou instruções específicas com respeito à instituição dos acólitos. Provavelmente, segundo alguns estudiosos, os Estatutos Antigos da Igreja (c. de 450) conteriam os decretos desse concílio. Os deveres do acólito, mencionados nesse documento são: levar os castiçais até o altar, acender as velas e entregar os elementos eucarísticos para o sacerdote. Atualmente, quando convocado pelo pároco, o acólito também ministra em outras áreas: música, ensino, pregação, ação social, etc.

Na Igreja da Inglaterra, cuja tradição seguimos, do século VIII ao XVI, os acólitos eram reconhecidos como uma ordem menor. A partir da Reforma, não são mais mencionados. No período de 1833 a 1845, aconteceu o Movimento de Oxford, responsável pela defesa de importantes conceitos: a Igreja Anglicana como instituição divina, a sucessão apostólica, a importância do Livro de Oração Comum, entre outros. Nesse período, ocorreu a redescoberta do acolitato na tradição anglicana e a restauração de suas funções, exercidas, obviamente, por leigos especialmente convocados e treinados para este fim. 

No anglicanismo brasileiro, os acólitos surgiram por volta de 1950, no Rio Grande do Sul (Manual do Acólito, Jubal Pereira Neves, 3a edição, 1983, pg. 6). Em algumas paróquias, os grupos de acólitos recebem o nome de Ordem de Santo Estêvão, porque seu ofício antigo, como vimos acima, era o de auxiliar os diáconos. Estêvão foi o primeiro diácono da Igreja, como também o primeiro mártir (At, caps. 6 e 7). Seu dia no calendário litúrgico é 26 de dezembro.

 Orientações gerais

Com relação ao exercício do acolitato, há costumes diferentes em cada paróquia. Um pároco é mais solene, outro mais informal; um, é mais meticuloso e exigente, outro, mais flexível. A regra sempre é: o pároco (ou o bispo, quando estiver presente) é a autoridade máxima na direção dos cultos. Os acólitos devem sempre subordinar-se a ele e consultá-lo quando tiverem qualquer dúvida. O serviço dos acólitos deve ater-se estritamente às determinações dadas pela autoridade eclesiástica, independentemente das preferências pessoais. Lembre-se que "a obediência é melhor do que o sacrifício, e a submissão é melhor do que a gordura de carneiros. Pois a rebeldia é como o pecado da feitiçaria; e a arrogância como o mal da idolatria" (I Sm 15.22-23). Servir no altar de Deus e na obra de Deus é um privilégio enorme e uma não menor responsabilidade. O acólito deve orar, pedindo a graça de Deus para poder desempenhar dignamente este ministério na Igreja.

Os acólitos devem chegar ao local de culto pelo menos trinta minutos antes do início da celebração, apresentar-se ao pastor e aguardar suas instruções. Instantes antes do início do culto, um deles deve discretamente acender as velas sobre o altar. A vela acesa tem como simbolismo: "Cristo, a Luz do mundo" e também representa o sacrifício do Filho de Deus por nós, porque a vela, para iluminar, precisa consumir-se.

 No culto, cada acólito deve comportar-se com reverência, pois é representante da congregação no altar e exemplo para o povo reunido. Não deve ser desajeitado para sentar-se ou ajoelhar-se e quando estiver em pé, deve estar em posição de prontidão, sempre atento às determinações do presidente da celebração, sem jamais encostar-se na parede ou em qualquer móvel. Deve portar o Livro de Oração Comum ou o boletim litúrgico, conforme o caso, fazendo os responsos com voz audível e clara, porém discreta, observando atentamente todas as rubricas do ritual. Nunca deve cochichar com alguém durante a celebração; obviamente, alguma situação inesperada pode requerer isto, mas será uma exceção. Caso tenha que transmitir algum recado necessário ao celebrante, deve preferencialmente escrevê-lo e discretamente colocá-lo sobre o púlpito.


Eucaristia

Para auxiliar na ministração da eucaristia, o acólito deverá estar vestido com uma túnica branca (batina), sem estola.cComo preparação para a santa comunhão, o acólito auxiliará o celebrante a lavar as mãos e lavará ele próprio as suas. Antes do culto, providenciará para que o lavabo esteja provido de água limpa. Se for chamado pelo celebrante, o acólito segurará o cálice durante a ceia, para a intinção do pão. Evitar ficar "encarando" as pessoas que estiverem vindo à mesa. Ao final da comunhão, o acólito providenciará a limpeza dos vasos e a arrumação da mesa. Após o culto, deve imediatamente apagar as velas e dirigir-se ao local apropriado para despir a túnica. Entretanto, o presidente da celebração pode requerer que o acompanhe ou que permaneça no local, por algum motivo especial.
                   
Preparo para a eucaristia

A Palavra de Deus aconselha um preparo adequado para recebermos o Corpo e o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo (I Co 11.17-34, especialmente o versículo 28: "Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice"). O acólito deve esmerar-se no cuidado com esta admoestação. O preparo pode ser iniciado na véspera da celebração e continuar durante a mesma. Devemos estar prontos para entrar na presença real do Senhor Jesus Cristo, que estará conosco no pão e no vinho.

O momento da confissão deve ser vivenciado com devoção sincera e arrependimento verdadeiro. A prática da lectio divina é altamente recomendável para o acólito; a leitura orante da Bíblia o ajudará a desenvolver a espiritualidade necessária para compor dignamente o grupo de acólitos. A oração e a leitura bíblica devem ser uma prática diária de qualquer cristão; muito mais do acólito!

A Ordem de Santo Estêvão

A Ordem de Santo Estêvão, ou o grupo de acólitos, é uma organização composta por crianças, jovens e adultos, de ambos os sexos, desejosos de dedicar lealmente à Igreja seus dons, talentos e habilidades e também vivenciar a liturgia reverentemente, buscando a maior glória de Deus e a salvação dos homens. Não é um grupo fechado nem composto por pessoas superespirituais. A santidade e a entrega de Estêvão, diácono e mártir, e sobretudo sua humildade, serão sempre excelentes exemplos a serem seguidos pelos acólitos. Nunca há perfeição em qualquer empreendimento humano, mas devemos oferecer o nosso melhor para Deus e esperar que ele nos aperfeiçoe a cada dia (Fl 1.6). A experiência tem demonstrado que o grupo de acólitos é um "celeiro" de futuros clérigos e de leigos dedicados à sublime obra do Senhor.

O acólito deve ser um exemplo para toda a congregação, como assíduo participante dos ofícios públicos e demais atividades da Igreja. O acólito deve ser humilde e sincero em seus relacionamentos com os demais membros do Corpo de Cristo. Quando vir que alguém – principalmente um companheiro acólito – cometeu algum erro, procurará, sob a orientação do pastor, ajudá-lo fraternalmente, e discretamente, sem críticas ou julgamento.

Regra de vida

Os exercícios espirituais (leitura bíblica, oração, meditação, confissão, jejum, adoração, simplicidade, submissão, etc.), devem ser uma constante na vida particular de cada acólito, constituindo uma verdadeira espiritualidade, uma regra de vida. Praticados com regularidade, tais exercícios devem tornar-se um hábito (não confundir hábito com rotina), um ritmo, através do qual a vida espiritual pulse e solidifique uma profunda comunhão com Deus e com os irmãos. "Em religião, como em tudo o mais, necessitamos de disciplina para progredir, necessitamos treinamento e prática para um desenvolvimento dos dons que Deus nos confiou" (Jubal Pereira Neves, op. cit., pg. 23).

Quanto a isto, é bom lembrar que o perfeccionismo não nos levará à perfeição; o preciosismo será sempre extremamente prejudicial. Portanto, o acólito não deve ser demasiado exigente consigo mesmo. A busca da excelência é diferente da busca da perfeição. Esta, só existe em Deus Pai, Filho e Espírito Santo; aquela, deve ser um traço
do caráter do ser humano, especialmente do acólito. Se você tiver que aprender uma única palavra em japonês, que essa palavra seja kaizen, a qual significa aperfeiçoamento constante, ou seja, que você não é perfeito, mas deve melhorar cada dia um pouco mais, em direção à perfeicão. A isto pode-se dar o nome de busca da excelência. O acólito, portanto, deve reforçar as virtudes que já possui e esforçar-se por abandonar os vícios, se necessário com a ajuda do seu pastor, pois para isto ele foi designado (Ef 4.11-12). Dia a dia, ponto a ponto, o acólito deve perseguir a maturidade e buscar a plenitude de Cristo (Ef 4.13).

O acólito tem muito a aprender com João Batista quando este referiu-se ao Senhor encarnado: "É necessário que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3.30). Parte importante do aperfeiçoamento contínuo do acólito é desvincular-se do seu eu e permitir que Cristo cresça e apareça em sua vida. Assim, o acólito será, como é desejável, a presença de Cristo no mundo.

Conclusão

A vida no acolitato deve se expressar com a presença todos os domingos no culto; na oração constante; na leitura diária da Bíblia e de literatura afim; e na consagração de parte da sua vida às atividades da Igreja: isto inclui ajudar pessoas a receber Jesus como único Salvador e Senhor, atuar intensamente na vida paroquial, interessar-se e agir nas questões sociais e comunitárias e contribuir fielmente para o sustento da Igreja através do dízimo e das ofertas, de acordo com a prosperidade que tiver recebido de Deus. Deus o abençoe rica e abundantemente!

Texto de autoria do Bispo José Moreno, clérigo da Igreja Anglcana Livre